Bets viciam? Entenda os riscos financeiros e psicológicos

Havia algo quase hipnótico na tela do celular. Uma partida de futebol, uma odd tentadora, o clique fácil de um botão. Para milhões de brasileiros, esse ritual começou como entretenimento — e, para muitos, nunca mais terminou. As apostas esportivas online, popularmente chamadas de bets, deixaram de ser um assunto periférico para se tornarem um dos maiores debates de saúde pública do país. E os números que estão surgindo são difíceis de ignorar.

BLOG

Redação da RichDaily

4/17/202611 min read

3 white dice on black surface
3 white dice on black surface

De acordo com levantamento do Datafolha publicado em 2024, mais de 32 milhões de brasileiros já apostaram em plataformas digitais. Entre janeiro e março de 2025, os apostadores brasileiros gastaram até R$ 30 bilhões por mês em bets, segundo o secretário-executivo do Banco Central, Rogério Lucca. Para se ter dimensão do que isso representa: o setor como um todo movimentou cerca de R$ 129 bilhões em 2024, segundo dados apresentados na CPI das Apostas Esportivas no Senado Federal.

Esses números não existem no vácuo. Eles têm nomes, rostos e histórias — de pessoas que começaram apostando o que podiam perder e terminaram perdendo o que não tinham.

O que é uma bet e por que ela se espalhou tão rápido

O termo bet vem do inglês e significa simplesmente "aposta". No contexto brasileiro, ele passou a designar as plataformas de apostas esportivas de quota fixa: sites e aplicativos onde o usuário aposta em resultados de partidas — futebol, basquete, tênis, eSports — com odds (probabilidades) definidas previamente pela casa.

A legalização dessas plataformas no Brasil ocorreu em 2018, durante o governo Michel Temer, por meio da Medida Provisória 846. A regulamentação efetiva, no entanto, só chegou com a Lei 14.790/2023, que estabeleceu regras para autorização de operadoras, proteção ao consumidor, restrição de publicidade e tributação do setor. Até outubro de 2024, empresas sem autorização foram obrigadas a encerrar as operações no país.

Mas entre 2018 e 2023, durante o vácuo regulatório, o mercado cresceu de forma acelerada e praticamente sem controle. Empresas estrangeiras chegaram em massa. Influenciadores digitais, celebridades e jogadores de futebol foram contratados para promover plataformas. Todos os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro passaram a ter patrocinadores ligados a apostas — um feito inédito no mundo.

A fórmula do crescimento era simples e eficaz: acesso via smartphone, cadastro rápido, bônus de boas-vindas, publicidade onipresente. Em 2025, a pesquisa TIC Domicílios revelou que 85% da população brasileira tem acesso à internet — cerca de 157 milhões de pessoas — e que quase um quinto desse total admite ter realizado apostas.

O mecanismo do vício: o que acontece no cérebro

A pergunta mais frequente é também a mais simples: isso vicia de verdade?

A resposta da neurociência e da psicologia clínica é categórica: sim. O transtorno do jogo patológico é reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um transtorno comportamental com mecanismos comparáveis ao vício em substâncias.

O psicólogo Luiz Fernando Miranda, especialista na área, explica que "a atuação do vício em jogos não está muito diferente dos outros vícios na parte neuropsicológica. Nada mais é do que uma atuação do cérebro que afeta alguns sintomas neurais relacionados ao prazer e à recompensa." O sistema de recompensa do cérebro — baseado na liberação de dopamina — é ativado não apenas pela vitória, mas pela expectativa da vitória. É a incerteza do resultado que mantém o apostador preso.

Esse mecanismo é chamado de reforço intermitente: a recompensa não vem sempre, mas vem o suficiente para manter o comportamento. Caça-níqueis, jogos de cassino e plataformas de apostas são projetados com base nesse princípio. A lógica é precisa: quando a recompensa é imprevisível, o comportamento se torna mais resistente à extinção.

O psicólogo e pesquisador Altay de Souza, professor de epidemiologia, vai além e aponta que as bets são "jogos projetados para viciar", sustentados pela promessa constante de ganhos rápidos. Em entrevista à Agência Pública, ele comparou o fenômeno a uma epidemia silenciosa, "oculta nas telas de celulares".

Segundo o Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), conduzido pela UNIFESP em 2023 e 2024, aproximadamente 10,9 milhões de brasileiros com mais de 14 anos apostam de forma que compromete a saúde emocional, familiar, econômica ou profissional — o equivalente a 6,8% da população nessa faixa etária. Desse total, cerca de 1,4 milhão se enquadra na categoria de jogadores patológicos: continuam apostando mesmo depois de perdas financeiras graves.

Os sinais que ninguém quer ver

O vício em apostas tem uma característica que o torna particularmente perigoso: ele é invisível. Não há marcas no corpo, não há alteração física aparente. A deterioração acontece por dentro — nas contas bancárias, nos relacionamentos e na saúde mental.

Entre os sinais mais comuns do transtorno estão:

  • Apostar quantias crescentes para obter o mesmo nível de excitação

  • Tentativas fracassadas de parar ou reduzir as apostas

  • Agitação e irritabilidade quando impedido de apostar

  • Usar as apostas como fuga de problemas ou sentimentos negativos

  • Mentir para familiares e amigos sobre a extensão das perdas

  • Depender de outras pessoas para cobrir dívidas causadas pelas apostas

A psicóloga Catarina Nivea Bezerra, professora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, é enfática: "Precisamos entender que isso não é apenas uma questão de escolha ou falta de força de vontade. É um transtorno mental, com impactos reais, e que exige uma resposta séria e integrada do Estado, das famílias e da sociedade como um todo."

A ocultação das perdas é um padrão recorrente nos relatos de quem viveu o vício. O apostador esconde extratos bancários, cria desculpas para dívidas, pede dinheiro emprestado sem explicar o motivo. O isolamento social segue naturalmente: amigos e família deixam de ser fontes de apoio e passam a ser obstáculos a serem gerenciados. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, 30% dos apostadores reconhecem que as bets impactam diretamente suas relações sociais.

O colapso financeiro: quando as contas não fecham

A dimensão financeira do vício em apostas é devastadora — e os dados disponíveis pintam um retrato sombrio.

Um levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas em parceria com o SPC Brasil revelou que cerca de 7,5 milhões de pessoas comprometeram suas rendas com jogos de apostas. Desse total, 29% já tiveram o nome negativado em função dessas despesas, e 41% admitiram ter renunciado ao consumo de itens essenciais — alimentação, saúde, educação — para continuar apostando.

Outros dados reforçam a gravidade: segundo levantamento citado no relatório da CPI das Apostas, 86% dos apostadores acumulam dívidas, 64% estão negativados no Serasa e 63% comprometem parte relevante da renda mensal com apostas.

O perfil socioeconômico de quem mais sofre não é o de um apostador abastado que joga por diversão. Segundo o relatório da CPI, 40% dos jogadores de apostas de quota fixa pertencem às classes D e E, enquanto 45% estão na faixa C. Apenas 16% situam-se nos estratos A e B. Para as famílias mais pobres, as apostas representam até 1,4% do orçamento total, conforme análise da consultoria Strategy citada pelo pesquisador Altay de Souza.

O dado mais emblemático dessa concentração nas classes mais baixas veio do Banco Central em agosto de 2024: R$ 3 bilhões dos R$ 14,1 bilhões pagos naquele mês pelo Bolsa Família foram usados em apostas. Um benefício criado para garantir alimentação e dignidade estava sendo, em parte, absorvido por plataformas de entretenimento projetadas para gerar perda.

O professor Marcelo Pereira de Mello, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), contextualiza essa dinâmica: "O tipo de jogo conhecido como bet, acessível por aparelhos celulares, tem seu nicho de exploração entre os mais pobres, pela facilidade de acesso e ausência de empecilhos legais e burocráticos." Ele observa ainda que o apostador contumaz das classes mais baixas tende a encarar a aposta como investimento — e que essa distorção cognitiva, associada a um comportamento compulsivo, se torna a fórmula perfeita para o endividamento crônico.

Saúde mental em colapso: da ansiedade ao suicídio

As consequências psicológicas do vício em apostas vão muito além da tristeza de perder dinheiro. A pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 51% dos brasileiros que apostam sentem aumento nos sintomas de ansiedade. Outros 42% usam as apostas como uma fuga das dificuldades cotidianas — mas, ao invés de aliviar o estresse, o vício aprofunda a sensação de impotência e isolamento.

Entre os efeitos mais documentados estão insônia, distúrbios de humor, irritabilidade, retraimento social e queda no desempenho profissional. Depressão e ideação suicida também aparecem nos estudos mais recentes com frequência alarmante.

Um estudo norueguês publicado pela revista The Lancet em março de 2025 encontrou que o suicídio foi a principal causa de morte entre pessoas com transtornos ligados ao jogo. Outro levantamento internacional, também publicado pelo The Lancet, analisou dados de 68 países entre 2010 e 2024 e identificou que 46% dos adultos e 18% dos adolescentes realizaram algum tipo de aposta nesse período.

No Brasil, o reflexo dessa crise já aparece nos dados do sistema público de saúde. Desde 2023, os atendimentos no Programa Ambulatorial do Jogo (Pro-Amjo), do Hospital de Clínicas de São Paulo, triplicaram, segundo reportagem da revista Piauí. Em 2024, o SUS registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos — um número que tende a crescer à medida que o reconhecimento do transtorno avança.

Quem mais está em risco

Os dados convergem para um perfil de maior vulnerabilidade: jovens entre 19 e 29 anos, do sexo masculino, das classes C, D e E. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, 46% dos jogadores brasileiros de apostas esportivas estão nessa faixa etária. Um terço desse grupo já está endividado ou com o nome sujo em função das apostas.

A entrada no mundo das apostas ocorre cada vez mais cedo. O LENAD III revelou que sites de apostas são acessados por 81,4% dos menores de idade que apostam — um dado que levantou alarmes imediatos entre especialistas e reguladores. A exposição precoce é considerada um fator de risco significativo: cérebros em desenvolvimento são mais suscetíveis ao reforço intermitente e à formação de padrões compulsivos.

Grupos em situação de isolamento social — pessoas que vivem sozinhas, que trabalham em casa, que enfrentam dificuldades emocionais — também figuram entre os mais vulneráveis. A aposta, acessível 24 horas por dia pelo celular, oferece uma combinação de estimulação imediata, senso de controle e promessa de mudança de vida que pode ser especialmente sedutora em momentos de fragilidade.

O papel da publicidade e da cultura do "guru de apostas"

Não seria possível compreender a explosão das bets no Brasil sem analisar o papel da publicidade. Entre 2018 e 2024, as plataformas de apostas investiram pesadamente em campanhas com atletas famosos, apresentadores de televisão e influenciadores digitais com milhões de seguidores.

As redes sociais foram o campo fértil. Perfis dedicados a "dicas de apostas", planilhas milagrosas e transmissões ao vivo mostrando ganhos expressivos proliferaram em todas as plataformas. Esse ecossistema criou o que ficou conhecido como a figura do "guru de apostas": alguém que se apresenta como um especialista capaz de transformar apostas em renda consistente.

Um apostador que superou o vício descreveu esse fenômeno com precisão em depoimento publicado pelo jornal O Casarão: "Essa ilusão de que qualquer um pode ser esse especialista, alimentada pelos 'gurus de apostas', é o grande problema a ser combatido. O retorno financeiro e emocional quando uma aposta múltipla dá certo é viciante, ilusório, extremamente perigoso e distante da consistência no longo prazo."

A regulamentação tentou corrigir parte disso. A Lei 14.790/2023 estabelece obrigações para a publicidade responsável, incluindo advertências obrigatórias como "jogue com responsabilidade". O CONAR também produziu um documento com regras específicas para o setor. Mas a eficácia dessas medidas ainda é debatida — e a pressão da indústria sobre legisladores foi documentada: segundo a plataforma Fiquem Sabendo, a aprovação da lei de regulamentação resultou de ao menos 78 reuniões de lobby em nove ministérios.

O que diz a ciência sobre tratamento e recuperação

O transtorno do jogo patológico é tratável. A boa notícia é que, com a abordagem certa, a recuperação é possível — e muitos apostadores que buscaram ajuda relatam melhora significativa na qualidade de vida.

O tratamento de referência é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que atua na identificação e reestruturação dos padrões de pensamento disfuncionais associados ao jogo. Distorções cognitivas típicas — como a crença na "ilusão de controle" (a sensação de que é possível influenciar resultados aleatórios) ou o chamado "pensamento mágico" (a convicção de que um grande ganho está "próximo") — são trabalhadas diretamente nessa abordagem.

A professora Catarina Bezerra aponta os elementos centrais do tratamento: "reestruturação cognitiva, controle dos estímulos digitais e envolvimento da família por meio de psicoeducação." A participação da família é considerada um fator determinante: "É fundamental que haja uma comunicação sem julgamentos, o estabelecimento de limites financeiros claros e a busca por ajuda profissional."

No Brasil, os principais pontos de acesso ao tratamento incluem:

  • CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): atendem casos de transtornos mentais, incluindo dependência de jogo, gratuitamente pelo SUS

  • UBS (Unidades Básicas de Saúde): porta de entrada para encaminhamento ao serviço especializado

  • Pro-Amjo (Programa Ambulatorial do Jogo): vinculado ao Hospital de Clínicas de São Paulo, é uma das principais referências no tratamento do transtorno no país

  • Jogadores Anônimos (JA): grupo de apoio baseado nos 12 passos, com reuniões em diversas cidades do país

  • Meu SUS Digital: a partir de 2025, o aplicativo passou a oferecer suporte especializado 24 horas para pessoas com transtornos relacionados a jogos e seus familiares

O tratamento é mais eficaz quando iniciado precocemente. Familiares e amigos que percebem sinais de alerta — aumento do tempo dedicado a apostas, mudanças de humor, ocultação de despesas — podem ter papel fundamental ao encorajar a busca por ajuda sem julgamentos.

O cenário regulatório em 2026

O debate regulatório no Brasil está longe de encerrado. A CPI das Apostas Esportivas no Senado Federal, criada em outubro de 2024 e encerrada em junho de 2025, recomendou o indiciamento de 16 pessoas — entre empresários, donos de plataformas e influenciadores. O relatório final, no entanto, foi arquivado numa sessão com placar apertado.

Em 2026, a regulamentação avançou em algumas frentes. Projetos de lei em tramitação no Congresso, como o PL 219/2026 e o PL 3563/2024, propõem medidas como a proibição de incentivos agressivos (como bônus de boas-vindas que induzem ao jogo contínuo), restrição de anúncios em horários acessíveis a menores e a possibilidade de exclusão compulsória de jogadores diagnosticados com transtorno patológico. O advogado e professor Henrique Lanza Neto observa que essas medidas alinhariam o Brasil a "padrões internacionais de jogo responsável".

A experiência internacional oferece modelos. O Reino Unido, por exemplo, anunciou que a Premier League deixará de ter patrocinadores ligados a apostas a partir da temporada 2026/2027. Países como China e Coreia do Sul mantêm restrições severas ao setor. No Canadá, atletas profissionais são proibidos de fazer propaganda de sites de apostas.

O Brasil, por enquanto, segue buscando equilíbrio entre a arrecadação que o setor representa e a proteção de seus cidadãos mais vulneráveis — um equilíbrio que, até o momento, pendeu mais para o lado da indústria do que das famílias.

Conclusão: a aposta que o Brasil precisa fazer

As bets não são o problema em si. Em mercados bem regulados, com apostadores informados e mecanismos eficazes de proteção, o jogo pode ser uma forma legítima de entretenimento para adultos conscientes dos riscos. O problema é o que acontece quando esse produto é lançado em massa sobre uma população com baixa educação financeira, desigualdade estrutural profunda e infraestrutura de saúde mental insuficiente.

O vício em apostas não é fraqueza moral. É um transtorno neurológico e psicológico documentado, com mecanismos claros, perfil de risco identificável e tratamento disponível. Reconhecer isso é o primeiro passo — tanto para quem enfrenta o problema quanto para quem convive com alguém que enfrenta.

Se você ou alguém próximo apresenta sinais de dependência em apostas, procure ajuda. O CAPS da sua cidade, o aplicativo Meu SUS Digital ou o grupo Jogadores Anônimos (jogadoresanonimos.org.br) são pontos de partida. A recuperação é possível. E começa com uma única decisão: a de não apostar mais na sorte, mas investir na própria vida.

Fontes: Instituto Locomotiva — Pesquisa A Epidemia das BETs; LENAD III, UNIFESP (2025); Banco Central do Brasil (2024/2025); CPI das Apostas Esportivas — Senado Federal (2024-2025); Pesquisa Datafolha (2024); The Lancet (2025); Pesquisa FAPESP (2025); SPC Brasil / CNDL; Universidade Federal Fluminense (UFF); Universidade de Fortaleza (Unifor); Agência Pública.